É conhecida e aceita por todos a existência do
Antimônio, ametal da família do nitrogênio.
Entretanto, ninguém nunca havia se dado ao trabalho de perguntar ao
Mônio se ele se sentia constrangido com tal fato e se algo poderia ser feito para melhorar sua qualidade de vida. Isso foi notado por
João da Corrida, filósofo de Madureira, no meio de um sonho envolvendo anjos e borboletas. Logo ele tratou de divulgar sua linha de raciocínio, que ganhou popularidade nos meios de pensadores. “
E o Mônio?
Ninguém nunca parou para pensar no pobre Mônio!”, clamava. Então repórteres e intelectuais do mundo inteiro, visando agradar a todos as partes envolvidas, resolveram consultá-lo. Mas a questão principal era:
quem seria o tal Mônio?
Os melhores cientistas do mundo usaram das mais potentes máquinas existentes para tentar localizá-lo, fosse por satélite, por rádio, por calor, por qualquer coisa. Um mês depois, reuniram-se numa cúpula privilegiada para discutir os resultados.
Estavam de mãos vazias.
A imprensa entrou em cena. Aquilo não podia. Se o Mônio não fosse encontrado, então o Antimônio teria que prestar um depoimento. Ele
tinha que saber o paradeiro do Mônio. Que história era aquela de ficar se opondo aos outros gratuitamente? Não senhor. Essa
moniofobia tinha que ter fim.
Depois de horas de interrogatório, saíram com uma triste notícia: o Antimônio não só não revelara o paradeiro do Mônio como
falecera misteriosamente durante a consulta, sendo encontrado com várias marcas de pancada e queimaduras de cigarro no rosto pela perícia. O mundo não chorou sua morte, claro: ia ser antimônio,
que se fodesse mesmo.
Seu corpo, atarracado e sujo, foi jogado numa vala e esquecido para sempre.
Subitamente, um pensamento óbvio, porém tenebroso, se estabeleceu na mente do povo:
o Antimônio tinha dado cabo na vida do Mônio. Por isso não revelara o paradeiro do desafeto. Por isso nenhum cientista capaz e altamente qualificado tinha conseguido encontrá-lo. Oh,
pobre Mônio! Vítima do preconceito e da violência!
Às oito da manhã de segunda-feira, um caixão cheio de rosas foi enterrado no
Pére Lachaise. Era o funeral simbólico do Mônio. Milhares de flores de todos os tipos enriqueciam o ambiente com cores e aromas. Na primeira fileira encontrava-se o prefeito de Paris, Jacques Chirac, George W. Bush, Ariel Sharon, Tony Blair, Vladimir Putin e outros líderes de Estado. Atrás, os artistas. Mais atrás, o povo. A imprensa cuidava de se infiltrar entre esses grupos.
O padre rezou sua mais bela reza, chorou suas mais verdadeiras lágrimas e pediu piedade a Deus.
O caixão baixou. O Mônio poderia descansar em
paz agora.