Segunda-feira, Outubro 10, 2005

Rejection junkie.

Abriu a boceta de rapé cheia de papel picado, retirou um pouco e colocou na chaleira. Eram ofensas que recebera na vida. Havia anotado todas, em ordem cronológica, e as degustava carinhosamente.

Aos poucos.

Meditou cada palavra, cada sílaba, cada letra. Aqui e ali achava um gracejo que lhe fazia rir, mas logo voltava ao normal.
Para quê? Para se martirizar, talvez. Porque sabia que era verdade. Porque sabia que era mentira. Quem sabe?

Cair do cavalo não é ruim. É bom para o cavalo, que perde carga, e para quem quer que observe. Faça regra de três e veja qual lado sai ganhando mais.

Domingo, Outubro 09, 2005

Obviedades.

O que você faz quando sabe exatamente o que vai acontecer a seguir?

Eu tenho certeza de que vai brigar com e reatar a amizade com Á.
Eu tenho certeza de que Xís vai se apaixonar por porque tem uma franja e gosta de bandas legais.
Eu tenho certeza de que Ípslon vai beber demais na próxima festinha e vai sair ficando com todo mundo. Na manhã seguinte, se arrependerá e dirá que foi a última vez.
Eu tenho certeza de que só está com Éle porque não pode estar com mais ninguém.

Estou me sentindo como Bill Murray em "O Feitiço do Tempo".
Assim não dá mais.
Isso não é vida!

Got to be some more change in my life.

Nada se cria.

Meu caro leitor, sem alarde
Se eu disser que sou plagiador.
Sou o sarcasmo do Mainardi,
Sou a dialética do Millôr.

Meu caro leitor, sem nem custo
Vou contar pra você o que sou:
Uns tristes poemas de Augusto
E augustos poemas de Poe.

Sou como escritor marginal,
Tento esconder a cornucópia.
Nada aqui é original.
Só a cópia.

Quinta-feira, Setembro 29, 2005

E se...

...pegassem todos aqueles aidéticos que andam na saída do New York e do Barra Shopping se esfregando em você perguntando se você tem medo deles com suas canetas e camisas do Legião Urbana, colocassem todos num avião e mandassem para uma frente de batalha em, digamos, Teerã? Aposto que não teria pra potência militar nenhuma. Os aidéticos hão de dominar o mundo!

Quarta-feira, Setembro 28, 2005

EstÉTICA.

As cortinas se abrem. O palco já está iluminado. O paciente encontra-se prostado frente ao médico. Ambos estão sentados, separados apenas por uma mesa de vidro.

MÉDICO: Bem, seu nariz é grande.
PACIENTE: Sim, doutor.
MÉDICO: E ainda vai crescer bem mais até os vinte e um anos...
PACIENTE: Sim, doutor, eu sei.
MÉDICO: Que tal se começássemos um pequeno tratamento para que seu nariz não cresça demais?
PACIENTE: Oh, doutor! Seria ótimo. Como é?
MÉDICO: Tome.

O doutor pega um pequeno aparato, semelhante a uma mordaça, e a entrega ao paciente.

PACIENTE (um pouco aturdido): Uma mordaça?
MÉDICO: Não, um retentor nasal. Tudo que você tem a fazer é usá-lo todas as noites até seus vinte e um anos que seu nariz ficará perfeitamente normal.
PACIENTE: Posso experimentar?
MÉDICO: Claro.

O doutor contorna a mesa e aperta o aparato no paciente. Este expressa sofrimento e consternação.

PACIENTE (com a voz terrivelmente anasalada): Como dói!
MÉDICO: Sinto muito, não temos escolha. Ou isso ou você terá que fazer uma cirurgia.
PACIENTE (já sem o retentor, empalidece): Cirurgia?
MÉDICO (sábio): Sim. Para diminuir seu nariz. Só temos essas duas opções. É essa que você estará escolhendo ao negar o uso do retentor nasal.
PACIENTE: Mas... bem, ok então. Tudo pela estética. Quanto custa o retentor?
MÉDICO: Duzentos reais.
PACIENTE (assustado): Como?! Mas é só uma vasilha de silicone acoplada a um elástico!
MÉDICO: Lembre-se que ou é isso ou a cirurgia...
PACIENTE: Ai... tudo bem. Eu faço o tratamento.
MÉDICO: Muito bem. Tem como pagar em cédulas? É que estou sem dinheiro e preciso levar a patroa pras compras hoje.

A cena escurece. Um minuto depois, do lado de fora do consultório, o paciente se vangloria com seu retentor nasal.

PACIENTE (com a expressão deformada de dor e a voz anasaladíssima): Ah, como eu adoro esses tempos modernos! Há duzentos anos, se eu tivesse esse problema, não teria como fazer o tratamento e acabaria recorrendo à cirurgia. E elas deviam ser bem mais precárias, naqueles tempos sombrios.

Terça-feira, Setembro 27, 2005

Vanguarda a todo custo!

Naquela pequena gravadora...

- Então, contratei aqueles artistas avant garde novos.
- Mesmo? São bons?
- Sim! E olha que são surdos.
- Surdos? Uau. Eles sentem a música através dos outros sentidos?
- Não, eles não sentem nada mesmo. Não é adoravelmente aleatório?

Segunda-feira, Setembro 26, 2005

O Mônio.

É conhecida e aceita por todos a existência do Antimônio, ametal da família do nitrogênio.

Entretanto, ninguém nunca havia se dado ao trabalho de perguntar ao Mônio se ele se sentia constrangido com tal fato e se algo poderia ser feito para melhorar sua qualidade de vida. Isso foi notado por João da Corrida, filósofo de Madureira, no meio de um sonho envolvendo anjos e borboletas. Logo ele tratou de divulgar sua linha de raciocínio, que ganhou popularidade nos meios de pensadores. “E o Mônio? Ninguém nunca parou para pensar no pobre Mônio!”, clamava. Então repórteres e intelectuais do mundo inteiro, visando agradar a todos as partes envolvidas, resolveram consultá-lo. Mas a questão principal era: quem seria o tal Mônio?

Os melhores cientistas do mundo usaram das mais potentes máquinas existentes para tentar localizá-lo, fosse por satélite, por rádio, por calor, por qualquer coisa. Um mês depois, reuniram-se numa cúpula privilegiada para discutir os resultados. Estavam de mãos vazias.

A imprensa entrou em cena. Aquilo não podia. Se o Mônio não fosse encontrado, então o Antimônio teria que prestar um depoimento. Ele tinha que saber o paradeiro do Mônio. Que história era aquela de ficar se opondo aos outros gratuitamente? Não senhor. Essa moniofobia tinha que ter fim.
Depois de horas de interrogatório, saíram com uma triste notícia: o Antimônio não só não revelara o paradeiro do Mônio como falecera misteriosamente durante a consulta, sendo encontrado com várias marcas de pancada e queimaduras de cigarro no rosto pela perícia. O mundo não chorou sua morte, claro: ia ser antimônio, que se fodesse mesmo.

Seu corpo, atarracado e sujo, foi jogado numa vala e esquecido para sempre.

Subitamente, um pensamento óbvio, porém tenebroso, se estabeleceu na mente do povo: o Antimônio tinha dado cabo na vida do Mônio. Por isso não revelara o paradeiro do desafeto. Por isso nenhum cientista capaz e altamente qualificado tinha conseguido encontrá-lo. Oh, pobre Mônio! Vítima do preconceito e da violência!

Às oito da manhã de segunda-feira, um caixão cheio de rosas foi enterrado no Pére Lachaise. Era o funeral simbólico do Mônio. Milhares de flores de todos os tipos enriqueciam o ambiente com cores e aromas. Na primeira fileira encontrava-se o prefeito de Paris, Jacques Chirac, George W. Bush, Ariel Sharon, Tony Blair, Vladimir Putin e outros líderes de Estado. Atrás, os artistas. Mais atrás, o povo. A imprensa cuidava de se infiltrar entre esses grupos.
O padre rezou sua mais bela reza, chorou suas mais verdadeiras lágrimas e pediu piedade a Deus. O caixão baixou. O Mônio poderia descansar em paz agora.

Domingo, Setembro 25, 2005

Variações sobre "A Luta Pela Esperança".

Toda aquela turba havia se amontoado na Igreja para assistir, pelo telão, a luta entre Max Baer e James Braddock pelo título de campeão mundial de peso-pesado. Aquele, um facínora malvadão com requintes de crueldade; este, um exemplar do sonho americano que representava a esperança e a superação das adversidades.

As coisas estavam na mais completa agitação. A massa de gente gritava a favor de Jimmy, com o padre comandando a zombaria. Nisso, avista-se uma garota mais distante da multidão, com a cara fechada. Bob aproximou-se e tentou puxar assunto:

- Então, que está achando da luta?
- Um saco.
- Sim, esse Max é um durão, mas tenho certeza de que Jimmy dará um jeito nele.
- Mas eu estou torcendo por Max Baer.

Bob ficou surpreso. Todo mundo torcia por Jimmy, o herói da liberdade, o defensor dos fracos, o modelo cristão. Por que aquela garota tão estranha divergiria do grupo? A superioridade de Jimmy era tão clara quanto amarelo é amarelo e verde é verde. Bob comentou.

- Exatamente. – respondeu a garota, /cherry_whasoever - Toda essa gente... sabe? Dessa categoria, torcendo por James Braddock. Digo, aposto que nem sabem que tipo de luva ele usa, nem o nome completo de todas as pessoas com quem ele lutou. Não são fãs do esporte de verdade, são posers, sabe? Outsiders. Quanto mais me distanciar deles, melhor.

Nisso, Bob já havia pegado uma barra de ferro e manejado-a para acertar /cherry_whatsoever bem no meio da cabeça, porque naquele tempo nos Estados Unidos uma coisa que o pessoal não tolerava era elitismo intelectual. Não senhor, de jeito nenhum.

Moderate rock!

Moderate rock!

(ASNEIRA SEM SENTIDO.)

É... parece bom.